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Abandonei a minha mãe.

Foi muito lentamente, mas abandonei-a. Hoje sei-o.
Deixei de lhe dar atenção, começou por aí, apercebo-me agora. Ouvia, mas sem decorar, tal como uma viagem de carro a falar ao telemóvel, a paisagem muda, sabes que passas por certos locais, mas no fim da viagem pouco te lembras. Há pressa em chegar ao destino, mas assim que chegas mais pressa há para te dirigires à próxima etapa, a vida é mesmo assim, feita no caminho.
Nunca, em momento algum, imaginei que fosse capaz de o fazer, hoje inegavelmente sei que fui, mas totalmente inconsciente. 
Muito simples. Fui mãe. 
A minha prioridade sempre foi a família e o que me saíu das entranhas, teve e tem de mim um amor visceral. A minha mãe já me tinha avisado que quando um filho nasce, tudo muda com o primeiro suspiro. Não é propriamente na gravidez, é no peso que se sente quando se tem um pedaço nosso em plenos braços. E esse peso não é em quilos, é em amor e sonhos. Foi tal e qual, mas para pior. Mudei eu, mudou o meu marido e mudámos os dois para melhor na tentativa exemplar de sermos uns bons pais. 
E fomos. 
Mas da mesma forma que a vida avança, avançámos nós e os problemas surgiram. A idade avança e com ela o envelhecimento geral. A minha mãe tinha a única desvantagem de ir na frente. Mas muito mais atrás, ficou a neta. Pensando eu que com as suas baterias duracell, estivesse ela rija e de longa vida pela frente. Mas não, adoece quando a minha mãe estava no seu segundo mês acamada. 
Leucemia mieloide aguda. Rara, mas fodida. Completaram a informação com a designação M5. Aprendi da pior maneira, que quantos mais nomes, siglas e designações, pior. 
Filha única, com filha única de uma única mãe. A quem acudir?
A minha mãe pouco mais soube, desde que me disse que era ela quem devia morrer e não a neta. Ela sabia bem, que se eu ou ela pudéssemos escolher, era simples. Tirávamos um dia só para nós as duas, fazíamos tudo aquilo que nos desse na real gana e no fim da noite, quando fosse quase de manhã e o sono teimasse em vir, adormeceríamos e (as duas de bem) com a escolha que tomámos, só acordaria eu com o peito cheio de dor, memórias e saudade. 
Mas na vida, as escolhas são ilusões. 
Morreram as duas no mesmo dia, a minha mãe de manhã, a minha filha à tarde, essa quem eu nunca abandonei. 
Eu morri também, restou a minha carcaça, um sorriso bem grande para exibir de quando a quando e o amor que sinto pelo meu marido que também ele agoniza nesta vida que ainda temos. Ele que me deu o que mais amei, e que destroçado, após dez anos da sua morte ainda me diz "a nossa menina ia gostar de te ver com essa roupa". 
Concluí que nunca estamos sós, mas nos momentos mais tristes, só a solidão nos abraça a acaricia, não sentimos o calor em coisa alguma. É tudo frio. Os beijos, a sopa, o pão. O café. O padeiro passa à mesma hora e o ponteiro do relógio sem cerimónia mostra-me que o melhor da minha vida já passou.
Sobra a saudade e as memórias. Em alguns dias excelentes, noutros insuportáveis de lembrar, são como acendalhas num fogo por controlar.

E hoje, estou num péssimo dia. 

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